Conto: O Druida

Posted on 02/09/2010

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O Druida

Gabriel Arruda Burani

Chovia. A velha estrada para o chalé, no alto da colina, encontrava-se ensopada e enlameada. “Impossível continuar” – pensou Sophie, desatrelando as amarras do cavalo.
Sophie era uma jovem aprendiz, destinou sua vida a tornar-se uma sacerdotisa da natureza, como fora previsto. Seu rosto era delicado, seus olhos brilhantes de um castanho profundo.. seus lábios trêmulos e molhados pelo frio e chuva, eram de um vermelho delicado. Seu lábio inferior era lindamente moldado. Seus cabelos eram de um louro acastanhado, pingavam, outrora lisos e macios, agora enlameados, escuros e molhados. O corpo da moça era atraente e sensual. Ainda mais ali, com seu vestido claro e de tecido fino e molhado, grudado ao corpo dela. A velha capa de couro não podia mantê-la seca. Conforme a chuva parecia aumentar, a capa começara-lhe a pesar…
Pegou sua arca, o mais precioso bem de sua carroça e colocou sobre o dorso do cavalo. Puxando-o pelas rédeas, Sophie começou a subir a colina. o cavalo insistia teimosamente à decidir o caminho mais difícil, dentre as poças e barreiras. A aprendiz começara a sentir mais e mais um cansaço.. o que lhe disseram certa vez, agora parecia lhe fazer sentido: “Uma mulher não sobrevive sozinha..”; Não! Sophie queria provar que isso era errado! Seria a primeira druida da região… mas para isso era preciso encontrar O Druida.
O que ouvira era que o Druida era um eremita que, não gostava de ser perturbado ou mesmo encontrado. Uns diziam que ele era um velho louco, seguidor de uma Deusa. Outros que ele era um homem jovem e em função de uma maldição era recluso. Sophie não se importava com a natureza do Druida, só queria encontrá-lo, fazer suas oferendas e pedir que ele ensinasse a lidar com os poderes.
– Procure no chalé! – exclamou um moleiro, apontando o dedo indicador em direção a uma estrada que serpenteava até uma floresta escuda, antes de expulsar a jovem de suas terras, dias antes.
Sophie estava ali. A estrada não era das piores. Seguiu por ela, até ali, adentrando o coração daquela floresta escura. O sol, escondido em meio as nuvens escuras, dava à paisagem tons escuros e cinzentos. O chalé a observava subir a colina, enquanto a chuva caía cada vez mais forte. A subida da jovem estava ficando difícil…
– Droga! – praguejou ela, ao cair ajoelhada em uma poça, que beirava a copa de uma arvore áspera.
Levantou. Sentiu que estava sendo observada… Cheia de ira, Sophie arremessou uma bota em direção a floresta. Nenhum sinal de seu observador. O cavalo mantinha-se inquieto e ela não tinha mais forças para resistir à rebeldia do animal. Suas mãos estavam dolorida, joelhos esfolados e seu pé esquerdo ferido por uma pedra traiçoeira…
Dirigiu-se ao lombo do cavalo. Tomou em suas mãos a arca de madeira. O cavalo, ao sentir-se mais leve e livre, começou a correr colina abaixo…
Sophie ficara ali, com o corpo todo molhado, olhos abertos e respiração ofegante. Sentia a chuva cair vigorosa sobre seu corpo.. Novamente sentiu ser observada, como a caça sob a mira do caçador. Pôs-se em pé. Tremia… o frio e o medo a fizeram esquecer da arca ou mesmo de cobrir seu corpo. Começou a subir o que restava da colina, com passos largos. Ferida e com a desconfortável sensação de estar sendo observada, ela continuou até chegar frente à um chalé de madeira. Aproximou da porta com passos vacilantes. Era uma porta de madeira trabalhada, com aspecto antigo. Tocou a batendo nela levemente…
A porta se abriu em seguida, com um rangido seco. Nada além da cinzenta luminosidade daquele fim de tarde que entrava pela porta, iluminava o interior do chalé. Mesmo sem ver o que a aguardava, Sophie entrou.
Seguiu no escuro. Apertou as pálpebras para poder ver melhor o que havia logo à diante. Não conseguiu identificar nada… Sentiu um impulso para seu lado esquerdo.. Olhou em direção e pareceu identificar uma lareira. Despiu-se da capa, deixando que caísse pesadamente no chão…
Sophie cambaleou até a suposta lareira. Esbarrou em algum móvel que não pode identificar, mas alcançou as pedras da lareira. Sentou-se em algo que parecia pele de algum animal, estendido no chão. Tremendo de frio, a pequena estendeu as mãos no interior da lareira em busca das pederneiras. Sujando seus braços e mãos de fuligem e espirrando pela poeira que se ergueu diante de si, encontrou as pedras. Bateu uma contra a outra por instantes até as faíscas acenderem um pouco de lenha que havia no interior da lareira. As fagulhas tímidas logo se tornaram labaredas.
A noite já caíra quando o chalé ficou iluminado. Deparou com uma saleta e uma escada de madeira para um mezanino. Havia poucos móveis: uma mesa de madeira, empoeirada e cheia de teias de aranhas nas pernas da mesma, seus ângulos retos.; alguns bancos empoeirados pareciam dispostos desordenadamente sob a mesa, envolta dela e na parede que se opunha à porta. Eram quatro. Uma estante de madeira maciça empoeirada e com poucos objetos manufaturados, estava encostada na parede que se
opunha a porta. A leste estava a lareira. Frente a ela, um sofazinho, o qual Sophie havia esbarrado, feito de couro gasto e arranhado, em madeira enegrecida. Sob ele, havia um troféu de caça: um grande e macio tapete de pele de urso, mantendo sua cabeça grande e forte e patas com garras afiadas. Tal urso parecia ter dois ou mais metros de cumprimento..
Sozinha ali, a jovem aprendiz sorriu levemente. Ficou nua. Deixou o vestido pendurado em um gancho próximo a lareira, para que secasse. Deitou sobre o tapete de urso. Suspirou olhando para o fogo… Estava deitada de lado.. sua cabeça apoiada em seu braço esquerdo esticado.. sua perna esquerda, dobrada e esticada. A outra perna repousando sobre a mesma. Sua mão direita acariciava os pêlos macios do urso. Algumas mechas de seus cabelos cruzavam seu rosto. Ela nada fazia enquanto a água escorria de seu corpo e rosto. Sophie continuava com um olhar perdido em direção ao fogo. Estava cansada, ferida.. mas ali sentiu-se segura… até que…adormeceu.
Sophie só acordou quando sentiu estar novamente sendo observada… Sentou-se rapidamente, escondendo com o braço esquerdo cruzando o tórax seus seios, com a outra mão, esticada em seu tronco, escondeu seu ventre. Sua expressão assustada deixou-a mais bonita, talvez por jamais ter sido vista com aquela expressão..
Frente a ela, um homem a observava… Ele se vestia mal, trajando roupas esfarrapadas e peles de animais. Era alto e forte. Seu rosto era másculo e severo, tinha o nariz aquilino. Havia algo que lhe dava uma estranha atração: seus olhos eram amarelados, com um brilho hipnótico. Permanecia parado, alguns metros de Sophie. Tinha expressão fria. Um olhar frio. De certo estava parado ali há algum tempo, pois sob seus pés havia uma poça de água e lama sobre as ripas de madeira do chão.
– Druida?! – murmurou ela, ainda tentando ocultar seu corpo como podia.
– O que quer? – exclamou ele, de forma rude.
– Eu.. me chamo Sophie… Vim em busca de conhecimentos… – sorriu sem graça – Eu te trouxe uma oferenda…
– Oferenda? – sorriu levemente. O sorriso não iluminou seu rosto, mas deu-lhe um ar mais agradável.
– Sim! – sorriu a jovem por sua vez, sentindo-se aliviada. – Ela está ali na… Na…
Sophie passou os olhos pela saleta. Não encontrara sua arca… Talvez a tivessem roubado. Ou não! Pior! Havia esquecido a arca quando o cavalo fugiu em algum lugar na orla do bosque da colina…
– Onde está a oferenda, moça? – exclamou o homem, quebrando o silêncio.
– Eu.. bem.. Acho que perdi na estrada… – envergonhada, abaixou a cabeça.
O homem fechou o rosto. Aproximou-se dela, com passos rudes e pegou o vestido da jovem, que já estava seco, e atirou sobre ela.
– Te vista e deixe minha colina… – rosnou ele, voltando em direção à mesa e sentando em um banco. Parecia mexer em algo sobre a mesa.
– Mas… – murmurou ela, enquanto vestia-se depressa.
– Ide embora.. não tenho tempo para ti!
– Por favor, Druida.. – pediu ela, segurando o braço do homem, na esperança de fazê-lo voltar para si – Não tenho mais para onde ir… meu maior desejo é igualar-me a ti.. – sorriu docemente ao vê-lo olhar para si.
– Olhares e palavras nada significam para mim… – respondeu ele com um olhar frio – Quando achares uma oferenda à altura de teu desejo, volte… Dê-me o que te é mais precioso… – aquelas palavras poderiam soar maliciosamente, mas o olhar do homem expressava sua seriedade.
Sophie ficou sem ação. Sabia que a oferenda era importante, mas não a tal ponto. Ela não tinha para onde ir. Deixou o feudo em que vivia em busca daquele homem e de todo conhecimento que ele guardava…
O Druida era um homem que povoava os sonhos de Sophie nos últimos anos. Um misto de curiosidade e desejo fez com que ele se tornasse alguém importante para a jovem. Tudo o que sabia sobre ele era uma lenda ou um boato envolvente. Coisas que expandia mais e mais o desejo em encontrar o ermitão. estar com ele… Algo que modificou o verdadeiro sentido de sua missão inicial ali. Sophie estava impressionada com ele..
– Por que me olhas? – perguntou ele, com sua voz grave.
– Eu… – tremeu a voz – Não sei.
– Ótimo. Vá embora. Já parou de chover e a noite ficará clara logo. – repetiu em um tom imperativo, olhando-a nos olhos.
– Não.. – murmurou baixo ajoelhando-se ao lado do banco em que estava o homem sentado. Segurou-lhe o joelho esquerdo – Deixa-me ficar e aprender. – dava um olhar piedoso e carente em direção ao homem.
– Eu.. não te quero aqui, Sophie – respondeu sério.
– Por favor… – estendendo a mão à direção ao rosto dele e fazendo uma carícia.
– Não! – exclamou ele, afastando o rosto e rosnando como uma fera, fazendo ela se afastar. – Ninguém pode ficar aqui comigo! Ide embora antes que seja tarde!
Ela tremeu. Seu coração estava disparado. A voz do Druida cheia de ira pareceu causar efeito sobre ela.
– Druida…
– Vá! – gritou, apontando o velho cajado de madeira torcida com um castão prateado gravado com runas, direção a porta, que se abriu bruscamente.
Sophie correu. Mesmo sem saber o porquê, correu para longe do chalé. Tremia da cabeça aos pés, suas feridas doíam, mas não mais que seu coração.
A lua cheia apareceu sobre o céu, atrás de algumas nuvens que dissipavam. Não mais chovia. Aquela era a única fonte de luz que iluminava os caminhos que percorrera para chegar ao chalé. A jovem aprendiz sentou na grama e começou a chorar. Não chorava por ter perdido a arca, o cavalo e a oferenda, mas chorava por perder seu coração. A relva molhada lhe causava frio. O vento leve arranhava sua pele. Sophie levantou. Caminhou mancando até a estrada. Começaria a descer o restante da colina, mas parou. Pareceu ouvir um uivo, vindo do chalé.
Novamente sentiu seu coração disparar. Como uma corsa que mal toca a relva quando corre, Sophie subiu a colina, ignorando a dor de seus ferimentos até a porta do chalé. A cena que vira paralisou-a: parado em meio a saleta havia um humanóide, uma criatura. Corpo coberto de pêlos negros, cauda cumprida e peluda. Patas ao invés de pés. No lugar de mãos haviam garras afiadas. Um rosto lobino. Focinho cumprido, dentes afiados.. Orelhas grandes e peludas. Estava de costas para a porta, arcado sobre tecidos e peles de animais..
O coração da jovem que estava acelerado, o fez novamente, mas com maior vigor. Ela tremeu e temeu. Caminhou com passos furtivamente leve até a mesa onde estava apoiado o cajado de madeira torcida do Druida. Segurou-o firmemente. Seus olhos pousaram sobre a runa prateada no castão.
Ergueu o cajado e bateu com toda sua força sobre a nuca da criatura que mal teve como revidar. O cajado partiu-se ao meio. O lobisomem deu um longo uivo e caiu pesadamente no chão, onde ficou imóvel. A moça largou o que sobrou do cajado no chão e saltou sobre o ser, fazendo-o virar para si.
– Por que Sophie…?! – grunhiu a criatura.
– C-como sabe meu nome?! – espantou-se ela, ficando em pé.
– Sou eu.. Sophie.. – murmurou abrindo os olhos amarelados.
– Não pode! Não! – exclamou ela, com os olhos enchendo de lágrimas e sentindo o rosto ser queimado por lágrimas, abraçando o corpo do ser.
– Não importa mais.. – envolvendo-a com um dos braços, sentindo suas forças se esvaindo.
– Por que evitou dizer-me? Por quê? – murmurou ela, enquanto via o lobisomem voltar a forma humana..
– Vergonha.. Medo… – sussurrou ele – Agora me vou…
– Não quero te perder… Só nos encontramos hoje.. – chorou ela, olhando os olhos amarelados do Druida perdendo o brilho pouco a pouco. Da nuca do homem esvaia-se sangue…
– Não me encontraste somente hoje, Sophie. Estou contigo desde quando teu desejo de me encontrar e o desejo de ser encontrado por ti enlaçaram nossas almas… – sibilou ele acariciando com as costas da mão o delicado rosto de Sophie.
– Não me deixe.. – pediu na esperança que ele a atendesse.
– Sophie… Estou morrendo fisicamente – sussurrou ele tão baixo – Mas não se esqueça que minha alma é assim como meu coração… São seus.
Ele a olhou mais uma vez e sorriu. Seus olhos amarelados murmuraram um “Adeus” e seus lábios “Te amo”, ficando cerrados, pela eternidade.

Conto representou a cidade de Cerquilho-SP no Mapa Cultural Paulista 2005-2006.

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