Psicologia & Cinema: “Big Fish” e o Diagnóstico Psicologico

Posted on 02/09/2010

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Em mais uma analise de filmes, apresento o olhar psicologico sobre o filme Big Fish, enfocando o tão abordado tema do diagnóstico em psicologia.

“Às vezes não faz sentido, e a maior parte nunca aconteceu de verdade.”
Will Bloom, 00:05:51 – Big Fish, 2003

O filme Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas, ou Big Fish, trata dos últimos dias de vida de Edward Bloom, um fantástico contador de histórias e sua relação com seu filho, que têm todas as histórias do pai como mentira. Depois de uma vida inteira ouvindo as mesmas e fantásticas histórias, e convivendo com os últimos dias de vida do pai, Will busca compreender a verdade por trás de todas as histórias. Somos convidados a viver cada história hora narrada pelo filho… hora narrada pelo pai. O presente ensaio refere-se à articulação do filme com os textos estudados na Disciplina Psicodiagnóstico.
Texto “Psicodiagnóstico: instrumento de revelação?” dos Anais do CRP-06, Vera Stella Telles, nos assinala que na pesquisa psicológica, ao não saber muito sobre o fenômeno de estudo, deve-se deixar que o fenômeno provoque o conhecimento, e tão logo, o método. Vale-se lembrar que não existe método certeiro que responda tudo acerca do sujeito. Foi com este ponto que assisti ao filme pela primeira vez: deixei-me ser surpreendido pelo fenômeno, para então buscar fazer um ensaio sobre ele. Posteriormente, comecei a ligar alguns pontos e fazer uma breve articulação com os textos estudados na disciplina durante o semestre.
Encontramos na figura de Will, o filho de Edward, a imagem daquele que busca a verdade por trás dos fatos. A verdade que deterá poder sobre os mistérios que rondam a figura de Edward. Na busca pela verdade, podemos relacioná-la aos escritos de Foucault (2007), sobre a Genealogia do Poder. O autor supõe que os saberes se constituem em “camadas”, ou seja, um conhecimento nasce de outro. Deve-se detectar até que ponto um saber está ligado a outro. Todo saber está arqueologicamente apoiado em outro saber que o precede. O que motivava Will a buscar esta verdade? Qual conhecimento que era buscado? A verdade em si, ou o fato de buscar-se conhecer Edward Bloom, seu pai? Nenhum poder se legitima sem um saber que o constitui. Se fizer uma ponte com o filme, esta verdade – o saber – nos dá a entender que é capaz de resolver todo mistério que o filho tem em relação ao pai, se suas histórias são ou não verdadeiras. A ausência deste saber pode não legitimar o poder existente, logo, todas as histórias de Edward são mentira, para Will: não há nenhum “saber” real que a legitima como verdade; não existem gigantes bruxas ou o peixe grande.
De forma geral, pautam-se no diagnóstico dois pontos importantes: o discernimento e conhecer a vida com bases científicas, ou seja, conseguir diferenciar um fenômeno de outro, para produzir um conhecimento científico (Ancona-Lopez, 1995). Um a vez que herdeiros da ciência positivista, a ciência humana busca produzir o conhecimento e, de forma autoritária, legitimá-lo como verdade. Will, já cansado deste modo de ver e ouvir a vida do pai, procura desvelar tudo: Sem discernimento e como herdeiro da autoridade da busca positivista de conhecimento, tomando como a sua verdade legítima, que tudo que lhe foi contado por Edward, é mentira. Seria como, em ponte com o fazer do psicólogo, ao receber um cliente adotarmos que toda a verdade que ele traz como sua, é mentira e ignorarmos toda produção subjetiva por trás de suas histórias. Antonio Armindo Camillo nos deixa a idéia de que um diagnóstico revela muito mais do especialista, daquele que o busca/faz – sua visão de mundo – do que aspectos do cliente, na busca sobre a verdade que não existe. Assim se adotarmos o modo como Will vê o pai, como mentiroso, tratamos de revelar não o sujeito como objeto de estudo, mas nós mesmos e como enxergamos o mundo.
A produção de subjetividade de Edward, sentido para vida, é regida pelo Princípio do Controle. A produção de discurso que incide sobre o corpo, o tempo e a toda vida, é este controle, o controle da verdade sobre as histórias maravilhosas. Ao mergulhar-se na banheira vestido e a sede incessante, dá indícios de que o discurso que Edward liga seu corpo com o objeto de seu fascínio: o Peixe Grande, ou a Besta como chama. Posteriormente veremos Edward se tornando o peixe, enfim livre. Todo discurso tem a finalidade de disciplinar. Segundo Foucault, o poder se caracteriza pelo discurso das disciplinas. O disciplinamento pressupõe uma lógica; os argumentos de autoridade regem quem é e quem não é, o que se pode ou não ser feito em determinados espaços. Assim, encontramos as histórias de Edward como um meio dele abrilhantar sua vida, de explicar sua existência, de narrar como será sua liberdade. Não estamos mais falando de verdades ou mentiras, mas de liberdade. Edward sempre buscou sua liberdade: “Então me ocorreu que talvez a razão para meu crescimento… era que eu estava destinado a coisas maiores. Afinal, um gigante não pode ter uma vida comum.” (Edward Bloom, 00:19:17.64/00:19:23.52 – Big Fish 2003).
Eis que me surgiu a pergunta: por que a busca da verdade, se é a liberdade que todos buscamos? Em determinado ponto, quando Edward se encontra hospitalizado e impossibilitado de falar, o médico da família pergunta a Will se ele conhece a história de seu nascimento. O rapaz diz conhecer, mas não a versão “verdadeira”. O médico lhe conta de forma breve, como foi seu nascimento, sem qualquer floreio ou qualquer fantasia, como seu pai toda vida o fez. Neste momento Will percebe que a verdade não tem a menor graça, ao menos não é tão maravilhoso como seu pai sempre contou. No grande e surpreendente final, Will deixa a busca pela real verdade de lado, e procura mergulhar no mundo de seu pai, para lhe dar sua grande história final. Esta era a única e verdadeira história que ambos viveram juntos, e posteriormente Will percebe que tudo era real: bruxas, gigantes..e o peixe grande. “Um homem conta suas histórias tantas vezes… que se torna as histórias. Elas sobrevivem a ele. E desta forma, ele se torna imortal.” (Will Bloom, 01:54:56/01:55:11 – Big Fish, 2003).


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BIBLIOGRAFIA

Anais do I Congresso de Psicologia, do CRP-06
Ancona-Lopez, Marília (org.) Psicodiagnóstico: processo de intervenção. São Paulo, Cortez Ed., 1995
Big Fish – Direção: Tim Burton – 2003
Costa, Jurandir Freire. Violência e Psicanálise. São Paulo, Graal Ed., 1986
D`or, J. Diagnóstico e estrutura. In: Estruturas e clínica psícanalítica. Rio de Janeiro, Taurus Ed., 1994
Foucault, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal Ed., 23ª Edição, 2007

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