Psicologia & Cinema: Falcão – Meninos do Tráfico – Discussão sobre Identidade

Posted on 02/09/2010

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Apresento-lhes um novo trabalho muito especial realizado na faculdade. Este é intimamente ligado à Psicologia Social e Cinema. Sua base foi a análise do processo da formação da identidade do sujeito, mediante assistir o documentário “Falcão – Meninos do Tráfico” de MVBill. Este meu texto foi postado inicialmente em Shvoong e posteriormente em Usina de Letras, finalmente sendo postado agora em meu site oficial. Boa leitura!

No documentário o processo de formação da identidade dos Meninos e meninas da favela pode ser visto a medida que os capítulos do documentário são aprensados. Usarei dos teóricos Heller e Ciamppa para pautar esta análise. A identidade se dá não só no campo particular, mas na relação entre o individuo e o mundo a sua volta… os meninos da comunidade em que estão inseridos se veem em meio a situações reais que suas brincadeiras costumam imitar. Aqueles meninos que assistencializam os bandidos, encontram neles uma imagem positiva, fazendo-lhes favores e os admirando… portar uma arma, lhes garante poder, respeito e sedução. Almejar uma arma para si, ou mesmo uma “motinha” é se igualar ou ao menos chegar perto do fascínio que os bandidos causam na comunidade em que vivem.A complexidade do processo da formação da identidade se dá na relação das diferenças e semelhanças (pequenas ou grandes) entre a interação da totalidade em constante transformação. Muitas vezes o caminho do crime se dá pelo fato familiar: uma mãe desamparada, os meninos encontram no crime um modo de trazer a ela uma “vida melhor”. Em geral o pai era ausente ou mesmo havia morrido.. segundo relatos, grande parte dos meninos tem grande revolta com a figura paterna. Posteriormente, quando têm sua família, tornam-se os mesmos pais ausentes para seus filhos que antes se diferenciavam e se revoltavam contra.

Estas crianças e adolescentes acreditam que não vivem na sociedade – a sociedade fora da sua
comunidade, que os considera um “nada” – contudo na favela, encontram a possibilidade de um vir a ser, no caso, com a marginalidade. É inserção dos meninos nesta a realidade. A comunidade e os falcoes vivem em uma situação de cumplicidade: de alguma forma ambos campos se ajudam e coexistem entre si. O tráfico conta não só com a comunidade em que vivem para existir, mas pelas forças externas, como os jovens salientam no decorrer do documentario. A policia e os bandidos formam um a segunda relaçãode cumplicidade: a policia aceitando a propina, mantendo o trafico atuante. O “policia” não é amigo, mas garante sua sobrevivência.

O único desfecho e a única certeza são a morte. Conhecidos, pais e amigos morrem todos os dias. Sobrevivência é a palavra que une a todos: aqueles que preparam a droga; aquele que rouba; aquele que mata. Alguns tentam diferenciar seu trabalho do dos bandidos: não traficam, não portam armas. Sobrevida e a Morte estão ligados e claramente delineados no cotidiano destes meninos.

“- Nenhum bandido se arrepende.” – foram as palavras de um cidadão. Este homem ficou paraplégico, foi preso e depois de um encontro com um policial, que lhe “abriu os olhos” mostrando-lhe que ele era inútil na sociedade do tráfico, encontrou forças para mudar de vida, deixando o trafico e começando a vender balas nos semáforos da cidade. Ao contrario dele, outros jovens cheios de sonhos não encontram forças para sair do mundo do crime. É a desesperança. Sabem que seu destino é apenas um tripé: a cadeia, a morte, e a cadeira de rodas, como é o caso do cidadão citado. O crime é uma falsa liberdade, nele entra quem quer, mas o desfecho, para eles, é a morte.

MV Bill fala sobre um Brasil dividido em dois. Existe aquele Brasil que estes meninos se identifica e se relaciona, e aquele que simplesmente os esquece.

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